Bem, eu estive pensando bastante em nós
dois. Lembrei-me daquele dia que fomos ao cinema e você derrubou toda a
pipoca em cima do meu vestido branco e eu tive que tomar quatro banhos
para conseguir tirar todo o sal que ficou em meu corpo – recordei até de
você me ajudando com o banho, sentando atrás de mim no chão do box e
massageando minhas costas com o sabonete nas mãos. E depois de ficar a
noite inteira acordada, relembrando tantos momentos daquela nossa
relação de quatorze meses, decidi: eu me quero de volta.
Hoje, quando eu espero um telefonema
qualquer, você some em Taiwan. Quando eu me acostumo com a saudade, você
me invade o quarto e o peito. Quando eu esqueço o teu cheiro, você se
perfuma em meus lençóis. Quando eu quero companhia pra dormir, você
acorda antes da hora. Quando eu te peço pra ir embora, você diz que tem
medo do escuro. Quando eu apago as luzes, você acende os olhos. É um
cão-e-gato eterno, saindo pelas beiradas. Brinco de equilibrista em tua
rede e você nem se preocupa. Te prometi ir até o fim do mundo e agora me
quero de volta.
Eu quero novamente ser aquela menina
independente, risonha e porra louca que fazia o que queria quando dava
na telha, sem me preocupar com o que iriam achar. Quero voltar a ser a
tal mulher que saía para tantos e tantos lugares – festas, museus,
cinemas ou coisa assim – sem sentir falta de uma companhia que me
sujasse de pipoca ou que segurasse a minha mão quando a mocinha beijava o
rapaz bonito no final.
Eu me quero de volta. Quero minhas noites
tranquilas sem procurar feito uma louca outro par de pernas ao lado.
Quero poder me atrasar e não ter ninguém me ligando de cinco em cinco
minutos para me apressar e para reforçar de que eu
estou-realmente-muito-atrasada. Quero poder mentir para alguém sem
sentir a menor culpa por isso. Eu me quero de volta.
Sinto saudades de mim.
Hugo Rodrigues

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